5 de janeiro de 2013

Süddeutsche Zeitung nº 298 (2013) {Alemanha} > "Tem sido um trabalho árduo"

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Tradução:

Quer os queiras ou não: os Tokio Hotel estão de volta - e eles estão aqui para ficar. Os gémeos idênticos, Bill e Tom Kaulitz, falam acerca do realschulabschluss, programas de casting, drogas e AC/DC.

As coisas em torno dos Tokio Hotel têm estado muito tranquilas há já algum tempo. Já lá vão mais de sete anos desde que o seu single "Durch den Monsun" preencheu as raparigas adolescentes com um êxtase sem precedentes enquanto forçavam os colunistas a fazer críticas maravilhosas. Bill kaulitz, andrógino e com um cabelo louco, e o seu gémeo idêntico dez anos mais velho Tom tornaram-se nos rapazes de posters em quartos de crianças de 15 anos e venderam milhões de álbuns. Apesar disso, ultimamente tem estado tudo tranquilo em torno dos gémeos Kaulitz, que se mudaram para Los Angeles. Agora, com 23 anos, os gémeos voltam como júris do programa da RTL "Deutschland sucht den Superstar" (DSDS). As gravações tomam lugar em Bad Driburg, localizado em Westphalian Wastelands, dentro de um hotel de classe com um parque de carros com vários andares. À frente das janelas do quarto de conferências, alguns fãs estavam à volta, com pelo menos 17 ou 18 anos. Por dentro, as estrelas juntam-se à mesa: os rapazes são demasiado velhos para serem abraçados, demasiado novos para imporem respeito. Ou queres puxar-lhes uma perna ou colocá-los no teu colo. 

SZ: Já lá vai algum tempo desde a última vez que ouvimos falar dos Tokio Hotel
Bill: Penso que a pausa se sentiu mais longa do que realmente foi, no público alemão. Depois do nosso último álbum, estivemos numa grande tournée na América do Sul e no Japão, depois só queríamos viver um pouco.

SZ: O que é que "só queríamos viver um pouco" motiva alguém que tenha estado a viver num estado de emergência desde os 15 anos de idade?
Bill: Passámos muito tempo com a nossa família. E com os nossos quatro cães.
Tom: Foi uma grande mudança para nós. Estar em tournée com a banda, temos uma grande equipa e posso contar com eles para tudo, qualquer coisa que precise em qualquer momento. Agora, eu tenho de cuidar das coisas por mim e isso incluí coisas com as quais nunca tive de lidar por mim próprio. Tive algumas situações esmagadoras, mas eu não queria de outra forma. 

SZ: Por exemplo?
Tom: Eu não sabia... Por exemplo, fui candidatar-me à licença de condutor de Califórnia, em Los Angeles. Pensei para mim mesmo: huh, tens que esperar numa porcaria de fila por tanto tempo? Tens de estar em pé durante um dia para te darem uma foto tua?

SZ: Los Angeles é agora a vossa residência permanente?
Bill: Passámos muito tempo nos E.U.A. porque temos estado a trabalhar no nosso novo álbum há dois anos e também para termos alguma privacidade. Mas também temos uma residência na Alemanha e algumas sessões de gravações também ocorrem lá. Os outros dois rapazes ainda vivem na Alemanha.

Para além de Bill e Tom, os Tokio Hotel consistem em mais dois outros - negligenciados publicamente - membros que se enquadram com eles como folhas à volta de flores e aqueles nomes e instrumentos (o baixista Georg e o baterista Gustav) são provavelmente postos entre parêntesis quando os Tokio Hotel estão rodeados de imprensa. Enquanto os gémeos estiveram nos E.U.A., esses dois tiveram de desmentir os rumores acerca do fim da banda.

SZ: Depois da longa pausa, sentem ainda mais a pressão do que antigamente?
Bill: Com o nosso segundo álbum foi provavelmente pior. Começámos com um single nº 1, seguido de um álbum nº 1. Quando esse terminou, fomos habituados ao sucesso permanente. Tudo depois tinha de ser pior. A imprensa só estava à espera que nós falhássemos ser nº 1, logo depois. E para começar a escrever isso agora que tudo terminou.

SZ: A maioria dos vossos primeiros fãs estão agora crescidos e ouvem música diferente. Isso não é um problema?
Bill: Não há nada que possamos fazer acerca disso. Mas não nos sentamos no estúdio a pensar que se existe mais ninguém a quem agradar. Supostamente, isto é para ser desfrutado por raparigas de 15 anos ou mulheres com 45 anos?
Tom: Vi um concerto dos AC/DC na televisão, ontem. Olhando para o público, é totalmente misto. Há aqueles que já eram fãs desde que Bon Swas ainda cantava e ao seu lado está alguém que acabou de os descobrir, ao ouvir a banda sonora de "Iron Man". Era assim que gostava que fosse.

SZ: Mas vocês não são os AC/DC. Eles trabalharam muitas décadas para subir ao topo, vocês chegaram logo lá.
Tom: Claro, mas isso aconteceu com outras bandas que conseguiram manter-se com sucesso também. Os Depeche Mode foram chamados de boysband ao início, totalmente postos de parte para serem ouvidos por rapazes. Hoje, quase ninguém se lembra disso.

Durante a altura entre 2005 e 2010, os Tokio Hotel eram tão amados e adorados pelos seus fãs como eram ridicularizados e odiados pelo resto das pessoas. Bill Kaulitz chegou ao número 1 no programa da pro7 "100 alemães mais irritantes" e a FHM colocou repetidamente no seu ranking "Mulher menos sexy". Ao mesmo tempo, o cantor teve sessões fotográficas com Karl Lagerfeld e a banda foi perseguida por fãs obcecadas. Ninguém poderia escapar à banda e cada alemão tinha uma reacção instintiva quando o seu nome era mencionado e podia ser qualquer coisa, mas nunca ficavam indiferentes. Em retrospectiva, isto talvez tenha sido o sucesso mais com mais duração:: pop para polarizar o público.

SZ: Como se sentem acerca dos Tokio Hotel serem mais reconhecidos como uma linha de separação de gostos do que como uma banda séria?
Bill: Sabes, não consegues mesmo controlar coisas deste género. Eles fizeram um inquérito acerca do nosso último álbum. Alguns rapazes da televisão correram a cidade com auscultadores e tocaram as nossas canções às pessoas. Algumas disseram "Isso é muito fixe" primeiro, mas quando lhes disseram que estavam a ouvir Tokio Hotel, a opinião delas mudou logo e disseram imediatamente que não gostavam.

SZ: Têm sido sempre polarizados desde o vosso primeiro sucesso, desde a vossa juventude. Desejam, às vezes, já terem crescido antes de experienciar tudo isto?
Bill: Por um lado penso que se pudesse retroceder, fazia as coisas de forma diferente e talvez esperasse mais alguns anos. Por outro lado, não importa o quão mau foi o meu dia, não importa que exista outro rapaz com uma câmara, não importa que exista algumas coisas privadas no jornal, novamente: estou agradecido de ter sido capaz de fazer tudo o que faço hoje. Era aterrador fazer outra coisa. Nasci para isto.

Acredito nele. Ambos parecem ser mais abertos e livres do que esperava que fossem, considerando a sua relação de amor/ódio com o público. Eles também parecem ser menos infantis como as pessoas que não gostam deles iriam sugerir. Tom, com as suas rastas, ainda parece um rapaz. Com Bill claro, é diferente: anéis, barba de três dias numa cara de porcelana, uma torre de cabelo branco na cabeça e na sua mão esquerda uma tatuagem com um estilo de esqueleto. Vem o próximo ano, ele será mais excêntrico mas consciente do seu estilo ou até uma estrela com um estilo novo no futuro: ou será a aberração tatuada, com piercings e não saudável de ontem. Como é que ele será visto, só vai ser decidido pelo sucesso do seu quarto álbum, que está agendado como seu lançamento em 2013. Mas tenham a certeza, são só estas opções, não vai haver meio termo.

SZ: Assumindo que o vosso regresso falhe, qual é o vosso plano B?
Tom: De qualquer das formas, não consigo imaginar o que fazer e para quem. Retirar-me por uns anos, escrever canções para outros artistas, a trabalhar no segundo plano; poderia imaginar isso, mas quase mais nada.
Bill: Estás certo, eu também não conseguiria sobreviver apenas trabalhando em qualquer lado. Sempre tive um problema com pessoas superiores e autoridade, sempre detestei isso.

SZ: Ainda estão em contacto com pessoas do vosso passado?
Bill: Ainda conhecemos alguns velhos amigos, um deles até é o nosso melhor amigo.
Tom: Temos falado acerca de aparecer numa reunião com colegas da escola. Provavelmente eu ia.
Bill: Não sabia. Esses rapazes nunca tiveram grandes sonhos. Eles eram mais do género de ir para as companhias dos seus pais ou tornarem-se veterinários ou agricultores.

SZ: Se vocês não conseguem imaginar seguir com uma "vida normal", então porque é que terminaram o vosso ensino, há três anos?
Tom: Por vezes, pergunto-me a mesma coisa.
Bill: Fizemos isso pelo bem da nossa mãe. Estávamos no 10º ano do gymnasium quando desistimos da escola por causa da banda, por isso já tínhamos aprendido tudo o que precisávamos para o realschulabschluss. Só fizemos isso para terminamos isso. Não podes fazer alguma coisa com isso, de qualquer das formas. Precisas mesmo do abitur para isso.

SZ: Para o quê, para ser mais preciso?
Bill: Por vezes, penso na ideia de ter aulas acerca de fashion design. Por divertimento.

SZ: Ser uma celebridade na universidade. Tens medo do facto de a vida numa universidade normal seja impossível para ti?
Bill: É verdade, não tenho mesmo liberdade em ir apenas e passear pelo parque. Mas falando artisticamente, posso fazer o que eu quiser. Isso é o mais importante para mim, coisa da qual estou mais grato. Até aos 15, tivemos de lutar por isso e vigorosamente. Hoje, sou o meu próprio patrão. Até a discográfica não nos pode dizer tanto. Mas claro, há coisas na vida que te levam abaixo e todos nós estamos débeis de qualquer forma. Eu, por vezes sou um pouco paranóico.

SZ: Paranóico?
Tom: Quando começámos, não tínhamos ideia de qualquer coisa que disséssemos poderia ser usada contra nós pela imprensa, de uma forma tão brutal. Ficámos mesmo chocados depois de ler as primeiras manchetes, quando tínhamos 15.

Mais do que ninguém, o jornal alemão "bild-zeitung" acompanhou a carreira da banda de forma intensa. Até durante os dois últimos anos mais tranquilos, os irmãos Kaulitz eram manchetes com alguma regularidade, por exemplo, considerando o seu "estilo de festa da pesada": "drogas pesadas: desconhecido! álcool: sempre!"; considerando a sua independência financeira: "Os Tokio Hotel eram supostamente para serem júris do "The Voice of Germany" por um salário de 1.2 milhões de € - rejeitaram a oferta"; considerando o pai dos gémeos, que se queixou acerca da "fama e dinheiro" que separou a família. Eles não gostam de falar sobre dele.

SZ: Habituaram-se às manchetes?
Bill: Estamos bastante confortáveis agora. Elas já falaram de tudo, drogas, anorexia, depressão. Agora, tenho a certeza que a maior parte das pessoas já sabem que isso é mentira.
Tom: Tenho pena da minha avó. Às vezes, ela pergunta-me se alguma coisa é verdade ou não.

SZ: O vosso novo trabalho como júris não vai diminuir a cobertura da imprensa.
Bill: Chega a um ponto em que tens de aceitar isso. Nós já nem sequer comentamos a maior parte das manchetes, agora, porque não queremos lidar com eles. Não iria mudar alguma coisa.

SZ: Mas não conseguiriam sem a manchetes, conseguiram?
Tom: Isso é a vista por fora, não é: agora eles precisam de promover o seu novo álbum. Mas nós não vendemos mais um álbum porque alguém escreveu que o Bill era anoréctico. Uma revista francesa até chegou a escrever que ele se tinha matado.
Bill: Estás certo, eu lembro-me disso.
Tom: Durante dois dias seguidos, as pessoas na França ligaram-nos porque tinham pensado que te tinhas atirado da janela.

Eles já não falam com a imprensa cor-de-rosa, disse-me Bill durante a nossa conversa. Mas mesmo assim, enquanto as gravações do DSDS continuam, muitas entrevistas, histórias e sessões fotográficas vão ser publicadas pela BILD, BUNTE e outras. Quando eu pedi ao management uma confirmação, eles responderam-me: "Porque a imprensa cor-de-rosa vai cobrir o DSDS e o envolvimento do Bill e do Tom com ou sem a nossa cooperação, nós fornecemos a algumas revistas escolhidas confirmações de tempo a tempo. Desta forma, os irmãos tentam conseguir um balanço e para juntar uma base sólida às histórias acerca deles." Falado abertamente: se temos de lidar com porcaria, ao menos queremos controlar isso. As coisas que fazes pela avó.

SZ: Já foram candidatos de um programa de casting, uma vez.
Bill: Apenas eu, há dez anos. A diferença entre nós e os outros candidatos de programas de casting é que começámos a fazer música quando tínhamos sete anos. Foi um trabalho árduo. Agora, vejo muitas pessoas que só querem estar na televisão, indiferentes ao seu talento.
Tom: Especialmente nos E.U.A. que quase todas as diferenças já desapareceram, entre ser famoso por causa do que podes fazer e ser famoso por ser estúpido.

SZ: Então pensas que a diferença está aí?
Tom: Felizmente, temos sido sempre capazes de viver ao fazer música. Enquanto consigamos fazer isso, consigo viver com a porcaria da imprensa cor-de-rosa.

Tradução (do inglês): CindyK

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